terça-feira, 26 de maio de 2009

Quando naquele dia se acabou em sua bebida,
e me desabou o céu
e caiu o teto
e me ligou à madrugada
só pra me dizer
que sou tua,
O meu marido, de dentro inspirou um suspiro sofrido, de quem já cansado não quer ser aquele homem ali que na cama contém com muita dureza a quentura do sangue ao rosto, para que a mágoa não esboce a sua queixa de dor; sem êxito, é claro. Da unha ao cabelo aquele homem era dor. Talvez então contesse uma coisa ainda maior, que não reconheço o nome.
eu te disse que estava tudo bem, para não ser complacente com a tua cena. Eu lhe confesso com a boca emburacada, sofrida, que o teu amor já não está aqui, que de ti, só tenho a lembrança bonita do que fui quando contigo... e que, mais, o meu desmantelo foi por ouvir as coisas que me dizia antes, e sentir como lembrança as coisas boas que sentia, eram boas as tardes! Ninguém jamais me amou com a expressão com a qual me amava. Eu estava em tuas músicas, em tuas pinturas, nos teu vídeos, no teu pescoço, nos teus cabelos, tu ama mesmo demais -- não mentem quando te dizem isso. -- mas, confesse também, que também o seu amor por mim não é coisa pra hoje, é coisa guardada de ontem, que vai ter de ser jogada fora.
O meu marido, que estava sentado na cama, se levantou, vestiu uma camisa, enfiou os pés num sapato e foi passar a vida fora. Eu continuei muda, porque não adiantaria mesmo tentar qualquer coisa, e as tentativas irritavam ele, eu tinha de respeitar seu quixume. Eu queria de novo poder deitar com a cabeça em suas costas, lhe passar a mão pelo perfil e ouvir seu riso baixo, de carinho. Dele eu sinto muito a falta, a barriga, a pele, o cheiro, os braços... quero tê-lo ainda, o espero, vivendo minha vida.
Me ocorreu agora de ligar pra ele, coisa que ainda não fizemos desde então.

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